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Luciano de Vries construiu e vendeu um negócio bem mais convencional antes de investir em servidores submersos ou em painéis de luz vermelha: a Costa Events, empresa de festas e eventos de verão que montou em solo espanhol. Depois recuou da gestão ativa da GAET Holding, a empresa que fundou, e passou a atuar apenas como acionista. Foi a partir dessa distância que começou a montar uma carteira de cerca de trinta investimentos que, vista de fora, parece feita de peças soltas.

Uma aposta em terreno conhecido

Terapia de luz vermelha para a longevidade. Centros de dados no fundo do oceano. Drones autónomos na Alemanha. Dívida privada em Viena. Infraestrutura de inteligência artificial de agente. São negócios que não partilham fornecedores, nem clientes, nem sequer continente. De Vries, hoje radicado em Tomar, aplica-lhes o mesmo filtro de qualquer forma.

A entrada de De Vries na terapia de luz vermelha veio através de uma parceria com a barrelsauna.nl, e o timing joga a favor dele. Entre 2018 e 2024, a avaliação global do setor saltou de pouco mais de 870 milhões de dólares para além de 1,2 mil milhões. Scott Chaverri, que fundou a Mito Red Light, estima uma expansão anual de 5,4 por cento até 2030, o que, segundo a Skin Inc., colocaria o mercado perto dos 1,7 mil milhões de dólares nesse ano.

É a fatia doméstica, máscaras LED e painéis compactos, que sobe mais depressa: soma 440 milhões de dólares em 2025 e deve chegar aos 658 milhões até 2032. Numa apresentação na feira Be+Well, em Nova Iorque, a Spate registou pesquisas por máscaras LED 34 por cento mais frequentes do que no ano anterior. A conta soma Google e TikTok, com sete em cada dez dessas buscas a acontecer no próprio Google. Antes de chegar a marcas de consumo como a Omnilux e a HigherDose, essa tecnologia passou por laboratórios da NASA, que a estudavam como forma de acelerar a cicatrização de tecidos sob microgravidade, uma origem que a Forbes Vetted recuperou recentemente. Para Julie Johnson, da HealthFocus International, parte do crescimento atual vem da Geração Z e dos millennials, que procuram um efeito visível na pele e no cabelo, não uma promessa a longo prazo.

Um problema de arrefecimento, resolvido pelo oceano

Do outro lado do seu portefólio está uma questão puramente técnica: como manter milhares de servidores frios sem que isso consuma metade da conta de eletricidade. Em terra, é basicamente o que acontece, com 40 a 50 por cento da energia de um centro de dados a ir só para isso. Debaixo d’água, essa fatia cai para cerca de 10 por cento porque o oceano assume o papel de refrigerante.

A Microsoft já tinha essa noção. Ao longo de quase uma década, testou-a no Project Natick e chegou a uma taxa de falhas de só 0,7 por cento entre os servidores submersos, contra 5,9 por cento em terra firme. Mesmo com esse resultado, engavetou o projeto, porque as contas do negócio ainda não fechavam naquele momento. Hoje fecham, e é a China que mostra isso na prática, com duas instalações comerciais em funcionamento: o Hainan Cluster, que atende China Telecom, Tencent e SenseTime a um ritmo de sete mil pedidos de inteligência artificial por segundo, e a unidade de Lin-Gang, perto de Xangai, pronta desde outubro de 2025 depois de 226 milhões de dólares investidos, com 97 por cento da sua energia a vir de parques eólicos no mar.

Some a isso a geografia: mais da metade das pessoas no mundo mora a menos de cem quilómetros do mar, o que coloca um servidor submerso fisicamente perto de quem realmente usa inteligência artificial no dia a dia. Isso corta tempo de resposta e energia perdida no trajeto. Na Alemanha, De Vries ainda financia drones autónomos para assumir tarefas fabris que continuam, apesar do risco, dependentes de mão de obra humana.

O critério que atravessa tudo

Perguntado sobre o que o leva a investir num setor ou noutro, De Vries explica-o assim: “O capital é uma mercadoria. A convicção não é.” A frase nasce da experiência de alguém que já esteve do outro lado da mesa, a construir um negócio próprio e a precisar de convencer outros a acreditar nele.

Essa experiência transparece em cada escolha que faz hoje. Mantém dívida privada em Viena, com colateral e retorno desproporcional, justamente para segurar a carteira se uma das apostas mais arriscadas em tecnologia falhar. Em fintech, segue um raciocínio parecido ao dos bancos digitais europeus. Em inteligência artificial, prefere apostar em quem constrói produtos sobre modelos já prontos em vez de tentar criar o próximo modelo, por acreditar que o valor vai se fixar ali conforme a tecnologia amadurece.

A pergunta que decide cada investimento repete-se, seja o setor a luz vermelha, os servidores submersos ou os drones alemães: este fundador continuaria a tentar resolver o problema mesmo sem o dinheiro dele? Trinta apostas depois, é a única resposta que De Vries trata como obrigatória.

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